Mente & Emoções

A necessidade de controlar tudo pode esconder uma história de absoluto descontrole

A necessidade de controlar tudo nem sempre nasce da força. Entenda como insegurança, imprevisibilidade e experiências antigas podem sustentar esse comportamento.

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Você manda uma mensagem e a pessoa demora a responder. Nada demais. Talvez esteja trabalhando, dirigindo, tomando banho, vivendo a própria vida, o que às vezes parece uma explicação surpreendentemente difícil de aceitar quando estamos ansiosos.

Então você olha o celular novamente.

Nenhuma resposta.

Passam alguns minutos e começa uma pequena investigação mental. Você tenta lembrar se disse alguma coisa errada, relê a conversa, observa o horário da última mensagem, imagina o que a pessoa pode estar fazendo e, dependendo da intimidade, talvez até confira se ela esteve online.

Curiosamente, a questão já não é mais a mensagem.

É a sensação de não saber.

Há pessoas para quem não saber é apenas não saber. Para outras, a ausência de uma resposta, de uma previsão ou de uma garantia produz uma inquietação difícil de explicar. É como se alguma coisa precisasse ser organizada imediatamente para que o mundo voltasse ao lugar.

É nesse ponto que o controle começa a ficar interessante.

Porque controlar nem sempre nasce da certeza. Muitas vezes, nasce exatamente do contrário.

Pode ser uma tentativa de nunca mais experimentar a sensação de estar completamente à mercê daquilo que não se consegue prever.

Quando organização deixa de ser apenas organização

Gostar de planejamento não significa ter necessidade excessiva de controle. Organizar compromissos, prever gastos, conferir informações e preferir ambientes minimamente estruturados pode ser apenas uma maneira funcional de conduzir a vida.

A diferença começa a aparecer quando um imprevisto relativamente pequeno provoca uma reação emocional muito maior do que aquilo que aconteceu aparentemente justificaria.

O restaurante mudou a reserva e a noite parece estragada.

Alguém alterou um combinado e surge uma irritação intensa.

O filho tomou uma decisão sem consultar e imediatamente aparece a necessidade de interferir.

O parceiro respondeu de uma maneira diferente da esperada e começa uma sequência de perguntas para descobrir exatamente o que aquilo significa.

No trabalho, outra pessoa decide executar uma tarefa de forma diferente e surge aquela vontade quase irresistível de explicar como deveria ser feito.

À primeira vista, tudo isso pode parecer apenas perfeccionismo, exigência ou dificuldade para lidar com pessoas menos organizadas.

Mas uma pergunta me parece mais interessante: o que exatamente fica ameaçado quando as coisas não acontecem como imaginávamos?

Na minha experiência de escuta, essa mudança de pergunta costuma abrir caminhos muito mais ricos. Em vez de perguntar apenas por que alguém controla tanto, podemos tentar compreender o que essa pessoa teme encontrar quando não consegue controlar.

Nem sempre encontraremos a mesma resposta.

Talvez o problema nunca tenha sido a agenda

Imagine alguém que cresceu em um ambiente emocionalmente imprevisível.

Não é necessário pensar imediatamente em acontecimentos extremos. A imprevisibilidade pode assumir formas muito mais silenciosas.

Pode existir em uma casa na qual nunca se sabia qual seria o humor de um dos pais ao chegar. Em relações nas quais carinho e afastamento se alternavam sem explicação. Em ambientes familiares onde promessas eram feitas e frequentemente quebradas. Em experiências nas quais a criança precisava perceber o clima antes de falar, pedir alguma coisa ou simplesmente existir com espontaneidade.

Uma criança nessas circunstâncias não possui os recursos de um adulto para pensar: “As pessoas são complexas e os comportamentos delas nem sempre têm relação comigo.”

Ela simplesmente vive aquela atmosfera.

E aprende.

Aprende a observar expressões.

Aprende a perceber mudanças de voz.

Aprende que determinados sinais podem anunciar problemas.

Aprende que antecipar talvez seja uma maneira de se proteger.

Décadas depois, aquela criança pode ter se tornado uma pessoa extremamente eficiente, organizada, responsável e admirada justamente pela capacidade de prever tudo.

A história anterior talvez nem seja lembrada conscientemente como algo importante.

Mas o funcionamento pode permanecer.

É aqui que a psicanálise nos oferece uma contribuição particularmente interessante: nem sempre compreendemos nossos comportamentos apenas observando aquilo que fazemos hoje. Alguns deles carregam soluções construídas em outros momentos da vida.

Soluções que talvez tenham feito muito sentido quando surgiram.

O problema é que uma estratégia criada para sobreviver emocionalmente a determinado ambiente pode continuar funcionando quando aquele ambiente já não existe.

O controle também pode ser uma tentativa de não ser surpreendido

Freud chamou atenção, em diferentes momentos de sua obra, para a maneira como o aparelho psíquico procura administrar tensão, desprazer e experiências que ultrapassam nossa capacidade de elaboração.

Isso ajuda a compreender algo aparentemente contraditório.

Às vezes tentamos controlar o presente porque, em algum nível, aprendemos que ser surpreendido pode doer.

Não necessariamente porque pensamos conscientemente nisso.

Ninguém acorda pela manhã dizendo: “Hoje controlarei todos ao meu redor para evitar a reativação de antigas experiências de impotência.”

Seria até conveniente se o inconsciente tivesse esse nível de educação e enviasse relatórios explicativos.

Normalmente, ele é bem menos didático.

O que aparece é a irritação.

A necessidade de conferir.

A dificuldade de delegar.

A vontade de saber exatamente onde alguém está.

A necessidade de receber garantias.

O desconforto quando uma resposta não chega.

A sensação de que, se você não acompanhar tudo pessoalmente, alguma coisa certamente dará errado.

É possível que por trás dessa vigilância exista uma crença emocional muito antiga: se eu conseguir prever o que acontecerá, talvez consiga impedir que algo me desorganize novamente.

E então surge uma espécie de paradoxo.

A pessoa tenta controlar tudo justamente porque, em algum lugar da própria história, conheceu profundamente a experiência de não controlar nada.

Há pessoas que aprenderam cedo demais a perceber o ambiente

Donald Winnicott dedicou parte importante de seu trabalho à compreensão do desenvolvimento emocional e da importância de um ambiente suficientemente confiável para que a criança possa amadurecer sem precisar adaptar-se excessivamente às demandas externas.

Quando existe segurança suficiente, a criança pode experimentar espontaneidade. Ela pode brincar, desejar, errar, testar limites e descobrir aos poucos que o mundo não desaparece quando alguma coisa sai diferente do esperado.

Mas existem experiências em que a atenção precisa ser direcionada cedo demais para fora.

Como está minha mãe hoje?

Meu pai está irritado?

Posso falar agora?

Será que fiz alguma coisa errada?

Melhor ficar quieto?

Essa leitura constante do ambiente pode ser extremamente sofisticada. Algumas pessoas se tornam adultas capazes de perceber pequenas alterações no comportamento dos outros antes mesmo que alguém diga qualquer coisa.

Isso pode ser confundido com uma espécie de sexto sentido.

Às vezes é sensibilidade.

Às vezes é aprendizado.

E algumas vezes são as duas coisas misturadas de uma maneira tão antiga que já não conseguimos distinguir onde uma termina e a outra começa.

O problema surge quando perceber deixa de ser apenas perceber e passa a significar vigiar.

Porque quem vigia dificilmente descansa.

A promessa silenciosa: “comigo isso nunca mais acontecerá”

Existem decisões que fazemos sem perceber que fizemos.

Uma pessoa que viveu dificuldades financeiras intensas pode construir uma relação extremamente rígida com dinheiro.

Alguém que foi abandonado inesperadamente pode passar a procurar sinais de afastamento em todos os relacionamentos seguintes.

Quem cresceu cercado por conflitos talvez desenvolva enorme necessidade de administrar o comportamento das pessoas ao redor.

Quem precisou assumir responsabilidades muito cedo pode sentir que depender de alguém é perigoso.

Não significa que essas histórias obrigatoriamente produzirão esses comportamentos. Seria simplista demais pensar dessa forma.

A experiência humana não funciona como uma fórmula matemática.

Duas pessoas podem atravessar situações semelhantes e construir respostas completamente diferentes.

Mas existe uma pergunta que vale a pena fazer: quais promessas silenciosas fazemos depois de experiências que nos marcaram?

“Nunca mais vou depender de ninguém.”

“Nunca mais vou ser pego desprevenido.”

“Nunca mais vou precisar pedir.”

“Nunca mais alguém decidirá por mim.”

“Nunca mais vou permitir que as coisas saiam do meu controle.”

Essas frases talvez nunca tenham sido pronunciadas.

Ainda assim, podem orientar uma vida inteira.

Controlar pessoas é mais complicado do que organizar planilhas

O controle se torna especialmente delicado quando entra nas relações.

Uma planilha aceita ser reorganizada.

Pessoas, felizmente ou infelizmente, não funcionam tão bem assim.

Elas mudam de ideia, esquecem coisas, interpretam situações de maneira diferente, desejam coisas que não desejávamos que desejassem e, para desespero de qualquer projeto de controle absoluto, possuem vida psíquica própria.

É justamente aí que algumas relações começam a sofrer.

A necessidade de segurança pode se transformar em cobrança.

A preocupação pode se transformar em vigilância.

O cuidado pode ganhar uma camada de invasão.

A tentativa de evitar uma decepção pode produzir tantos mecanismos de proteção que a própria relação fica sem espaço para respirar.

Talvez alguém diga: “Eu só quero saber.”

Mas quanto precisa saber para finalmente se sentir seguro?

A localização?

Com quem a pessoa está?

O que está fazendo?

O motivo de não ter respondido?

A garantia de que está tudo bem?

E depois dessa garantia, quanto tempo passa até ser necessária outra?

Essa é uma questão importante porque o controle costuma fazer uma promessa que dificilmente consegue cumprir.

Ele promete segurança definitiva.

Só que a vida não oferece esse contrato.

Quanto mais controle, mais medo de perder o controle

Existe outro detalhe curioso: algumas estratégias de controle produzem exatamente o estado emocional que pretendiam evitar.

Quanto mais alguém verifica, mais sente necessidade de verificar.

Quanto mais procura garantias, menos consegue tolerar momentos sem garantia.

Quanto mais tenta antecipar todas as possibilidades, mais possibilidades ameaçadoras consegue imaginar.

É como tentar eliminar completamente a incerteza pensando sobre ela.

O pensamento responde criando novos cenários.

“E se?”

Essa pequena pergunta pode trabalhar horas extras.

A psicanálise nos ajuda a compreender que determinadas defesas não permanecem porque são perfeitas. Elas permanecem porque oferecem algum tipo de proteção psíquica, ainda que tragam custos.

Controlar pode diminuir a ansiedade por alguns minutos.

Receber aquela resposta tranquiliza.

Confirmar novamente alivia.

Descobrir onde alguém está acalma.

Reorganizar tudo devolve uma sensação de domínio.

O problema aparece quando a tranquilidade depende cada vez mais dessas confirmações externas.

Nesse momento, talvez a pessoa não esteja controlando a vida.

Talvez esteja tentando controlar a própria angústia através da vida.

E essa diferença muda bastante a conversa.

O perfeccionismo pode ter uma história parecida

Há pessoas que não tentam controlar os outros, mas constroem um controle rigoroso sobre si mesmas.

Não podem errar.

Não podem esquecer.

Não podem parecer despreparadas.

Precisam pensar antes de falar, revisar antes de enviar, conferir antes de entregar e, depois de entregar, conferir mentalmente outra vez.

Por fora, frequentemente parecem extremamente competentes.

Por dentro, talvez estejam exaustas.

Erich Fromm discutiu, em sua obra, como necessidades humanas de segurança, pertencimento e orientação atravessam nossa relação com o mundo. Em contextos diferentes, podemos desenvolver maneiras bastante rígidas de procurar essa segurança.

Às vezes, a excelência deixa de ser apenas desejo de fazer bem feito e se transforma numa tentativa de evitar algo emocionalmente mais profundo: crítica, rejeição, humilhação, desapontamento ou sensação de inadequação.

Nesse caso, o erro deixa de ser apenas um erro.

Ele passa a carregar significados.

“Se eu errar, vão perceber que não sou tão capaz.”

“Se eu não estiver preparado, ficarei vulnerável.”

“Se eu depender de alguém, posso me decepcionar.”

Quando uma pequena falha parece emocionalmente enorme, talvez valha a pena investigar o tamanho da história que ela está carregando.

Existe uma diferença entre ter controle e precisar dele

Essa talvez seja uma das distinções mais importantes.

Ter algum controle sobre a própria vida é saudável.

Precisar controlar para conseguir sentir-se emocionalmente seguro é outra coisa.

Uma pessoa pode planejar uma viagem cuidadosamente e, diante de um voo atrasado, pensar: “Que inconveniente.”

Outra pode sentir que todo o equilíbrio interno foi ameaçado.

O acontecimento externo é semelhante.

A experiência emocional não.

Por isso, comparar comportamentos isolados raramente nos diz muita coisa.

A questão não é simplesmente quantas vezes alguém confere uma porta, organiza uma agenda ou pergunta onde o parceiro está.

A questão mais interessante é: o que acontece dentro dessa pessoa quando ela não pode fazer isso?

É nesse espaço que começamos a sair da superfície do comportamento.

Talvez abrir mão do controle não seja o primeiro passo

Costumamos dizer para pessoas controladoras: “Você precisa relaxar.”

É uma frase bem-intencionada e quase completamente inútil.

Se o controle funciona como uma defesa contra alguma sensação de vulnerabilidade, simplesmente retirá-lo pode ser vivido como aumentar a exposição justamente àquilo que a pessoa tenta evitar.

Talvez o caminho não comece com “pare de controlar”.

Talvez comece com curiosidade.

O que você imagina que aconteceria se não pudesse conferir?

O que existe de tão desconfortável em esperar?

O que significa depender?

O que um erro diz sobre você?

Por que determinadas mudanças de plano parecem tão ameaçadoras?

Que sensação aparece quando alguém toma uma decisão que você não consegue influenciar?

Essas perguntas não servem para encontrar rapidamente uma explicação sobre a infância e encerrar o assunto. A história psíquica de uma pessoa é muito mais complexa do que isso.

Servem para transformar automatismo em observação.

E existe uma diferença enorme entre repetir um comportamento e começar a perceber o que acontece segundos antes de repeti-lo.

O que aparece quando finalmente não conseguimos controlar?

Talvez essa seja a parte mais desconfortável.

Porque enquanto estamos ocupados organizando pessoas, situações, respostas, horários, possibilidades e expectativas, podemos evitar uma pergunta mais íntima.

O que eu sinto quando não tenho controle?

Medo?

Raiva?

Desamparo?

Vergonha?

Ansiedade?

Sensação de abandono?

Impotência?

Talvez nenhuma dessas palavras seja suficiente.

E talvez seja justamente por isso que o controle tenha se tornado tão eficiente durante tanto tempo.

Ele faz alguma coisa.

Organiza.

Prevê.

Confere.

Interfere.

Resolve.

Enquanto estamos fazendo, não precisamos necessariamente sentir.

Algo que observo quando penso sobre relações humanas é como determinadas características que costumamos chamar simplesmente de “jeito de ser” podem conter histórias inteiras.

“Eu sempre fui controladora.”

“Sou assim mesmo.”

“Se eu não fizer, ninguém faz.”

“Gosto das coisas do meu jeito.”

Pode ser apenas uma preferência.

Mas também pode valer a curiosidade de perguntar quando esse jeito começou a ser necessário.

Porque existe uma diferença entre escolher organizar a própria vida e sentir que alguma coisa terrível poderá acontecer se você não conseguir organizá-la.

Talvez amadurecer emocionalmente não signifique abandonar completamente o controle. Afinal, alguma previsibilidade torna a vida possível.

Talvez signifique descobrir que nem toda incerteza anuncia uma catástrofe.

Que nem todo silêncio é abandono.

Que nem toda mudança de plano é ameaça.

Que nem todo erro produz rejeição.

Que outras pessoas podem fazer escolhas diferentes sem que isso destrua nossos vínculos.

E, principalmente, que podemos atravessar momentos em que não sabemos exatamente o que acontecerá.

Talvez a verdadeira segurança não esteja em conseguir impedir que a vida saia do roteiro.

Talvez esteja em descobrir que, quando ela sair, você já não é aquela pessoa de outro tempo, sem recursos, sem escolha e completamente à mercê do que acontecia ao redor.

Essa história pode explicar por que o controle um dia pareceu tão necessário.

Mas ela não precisa continuar decidindo tudo.

E talvez a pergunta mais interessante não seja “como posso controlar menos?”, mas outra, bem mais profunda:

o que dentro de mim ainda acredita que precisa controlar tudo para nunca mais se sentir sem nenhum controle?

Referências e leituras utilizadas

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. 1920.

FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e ansiedade. 1926.

WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed.

FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar.

Fran Carvalho Psicanalista

Aviso sobre conteúdo

Este artigo tem finalidade educativa e informativa. Não oferece diagnóstico, tratamento individualizado nem substitui acompanhamento profissional.