Mente & Emoções

Existe um luto pelas coisas que nunca aconteceram

Nem toda perda envolve algo que tivemos. Entenda por que futuros imaginados, relações e versões de nós mesmos também podem exigir um processo de luto.

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Você encontra uma fotografia antiga no celular. Nem estava procurando por ela. Talvez tenha aparecido naquele recurso que insiste em nos mostrar o que estávamos fazendo cinco anos atrás, como se o telefone tivesse sido contratado para cuidar da nossa nostalgia.

Na fotografia, você está sorrindo ao lado de alguém. E o curioso é que aquela pessoa talvez nem faça mais falta.

O que aperta um pouco o peito é outra coisa.

É lembrar de tudo o que vocês disseram que fariam.

A viagem que nunca aconteceu. A casa que vocês chegaram a imaginar. O aniversário que seria comemorado juntos. As conversas sobre filhos, mudanças, projetos ou simplesmente sobre como seria envelhecer ao lado um do outro.

Nada disso existiu de verdade.

Mesmo assim, alguma coisa parece ter sido perdida.

Em outras situações, nem existe fotografia. Existe apenas aquela frase que às vezes surge silenciosamente no pensamento: “A essa altura da vida, achei que estaria em outro lugar.”

É uma sensação estranha porque ninguém morreu, nenhuma casa foi vendida, nenhum objeto desapareceu e, em alguns casos, sequer houve uma relação concreta para terminar.

Ainda assim, existe tristeza.

Existe um tipo de luto que quase ninguém reconhece porque ele não acontece apenas quando perdemos aquilo que tivemos.

Às vezes, sofremos justamente pelo que nunca chegou a existir.

O futuro também pode ocupar espaço dentro de nós

Quando pensamos em luto, normalmente imaginamos uma perda concreta. A morte de alguém, o fim de um relacionamento, uma demissão, uma mudança de cidade, o afastamento de uma amizade.

Mas nossa vida psíquica não se organiza apenas em torno daquilo que aconteceu.

Nós também vivemos emocionalmente em relação àquilo que esperamos que aconteça.

Imagine alguém que passou anos acreditando que receberia determinada promoção no trabalho. Essa pessoa estudou, recusou outras oportunidades, suportou situações desagradáveis porque acreditava estar construindo alguma coisa. Um dia descobre que a promoção não virá.

Ela perdeu exatamente o quê?

Tecnicamente, não perdeu o cargo porque nunca o teve.

Mas seria bastante superficial concluir que, portanto, não houve perda.

Havia um futuro organizado em torno daquela possibilidade. Talvez existisse uma imagem de reconhecimento profissional, estabilidade financeira, orgulho pessoal ou até uma fantasia silenciosa de finalmente provar alguma coisa para alguém.

Quando aquela possibilidade desaparece, não desaparece somente um cargo imaginado.

Desaparece uma versão possível da própria vida.

É aqui que a questão começa a ficar interessante.

Porque somos capazes de estabelecer vínculos não apenas com pessoas e coisas, mas também com expectativas, projetos, fantasias e versões futuras de nós mesmos.

Algumas histórias terminam antes mesmo de começar

Isso aparece de maneira especialmente intensa nos relacionamentos.

Duas pessoas se conhecem. Conversam todos os dias. Há interesse, expectativa, intimidade crescente. Começam aquelas pequenas projeções aparentemente inocentes.

“Quando você vier aqui...”

“Um dia precisamos conhecer aquele lugar...”

“Você vai adorar minha família...”

“Imagina nós dois viajando para lá...”

Pouco a pouco, começa a existir uma história.

Talvez ela exista muito mais no campo da possibilidade do que na realidade, mas emocionalmente já ganhou endereço.

Então alguma coisa acontece. A relação não avança. A pessoa se afasta. Surge outra pessoa. As mensagens diminuem até virarem silêncio.

E quem ficou pode se sentir quase constrangido com a própria tristeza.

“Mas nós nem tínhamos nada.”

Essa frase é muito mais interessante do que parece.

Talvez realmente não tivessem uma relação constituída. Mas isso não significa que nada estivesse acontecendo psiquicamente.

Havia investimento emocional.

Havia expectativa.

Havia uma narrativa sendo construída.

Sigmund Freud, em Luto e melancolia, publicado em 1917, desenvolve sua reflexão sobre o luto a partir da perda de um objeto amado ou de algo que tenha ocupado psicologicamente esse lugar. A contribuição freudiana nos ajuda a compreender que uma perda não precisa ser pensada apenas pela materialidade daquilo que desapareceu. Importa também o investimento psíquico depositado ali.

Isso abre uma possibilidade importante para pensarmos certas experiências contemporâneas: às vezes o objeto do nosso investimento não é somente aquilo que uma pessoa é, mas aquilo que imaginamos que poderíamos viver com ela.

Quando a relação termina, portanto, pode desaparecer também todo um futuro que havia começado a ser emocionalmente ensaiado.

Você talvez não esteja sentindo falta da pessoa

Na minha experiência de escuta, uma pergunta que considero especialmente interessante diante de algumas perdas é: do que exatamente sentimos falta?

A resposta aparentemente óbvia seria: da pessoa.

Nem sempre.

Às vezes sentimos falta de quem éramos perto dela.

Em outras situações, sentimos falta de quem imaginávamos que nos tornaríamos naquela relação.

Isso explica algo que costuma causar bastante confusão. Alguém pode compreender racionalmente que determinado relacionamento não funcionava e, ainda assim, sofrer intensamente quando ele termina.

A pessoa sabe que havia incompatibilidades. Lembra das discussões. Reconhece coisas que a incomodavam. Talvez nem queira realmente retomar a relação.

Mesmo assim, dói.

Porque a razão está analisando a relação que existiu, enquanto uma parte do sofrimento pode estar ligada à relação que nunca chegou a existir.

É quase como terminar dois relacionamentos ao mesmo tempo: aquele que tivemos e aquele que acreditávamos que um dia teríamos.

O segundo costuma ser particularmente difícil porque nunca enfrentou o desgaste da realidade.

A viagem imaginada nunca teve voo atrasado. A casa sonhada nunca teve conta para pagar. O relacionamento idealizado nunca precisou discutir sobre dinheiro, rotina, ciúme, cansaço ou quem deixou a cozinha daquele jeito.

Aquilo que não aconteceu conserva uma vantagem poderosa sobre aquilo que aconteceu: continua podendo ser perfeito.

O passado que dói pode estar no futuro

Parece contraditório, mas algumas lembranças doem justamente porque carregavam futuro.

Pense na pessoa que, aos 40 ou 50 anos, olha para trás e percebe que determinadas escolhas fecharam caminhos.

Talvez tivesse imaginado ter filhos e isso não aconteceu.

Talvez tenha adiado indefinidamente um projeto profissional.

Talvez tenha permanecido durante anos em uma relação esperando uma transformação que nunca veio.

Talvez tenha acreditado que determinada amizade duraria para sempre.

Talvez simplesmente imaginasse que, nessa idade, sentiria que finalmente tinha entendido a vida.

Nesse último caso, tenho uma notícia pouco glamourosa: aparentemente ninguém recebe esse manual.

O sofrimento que surge nesses momentos não significa necessariamente arrependimento. Podemos considerar que fizemos as melhores escolhas possíveis com aquilo que sabíamos naquele momento e, ainda assim, reconhecer que outros caminhos deixaram de existir.

A vida adulta contém uma descoberta desconfortável: escolher também significa renunciar.

Enquanto somos jovens, muitos futuros parecem simultaneamente disponíveis. Podemos imaginar várias profissões, cidades, relações, estilos de vida.

Com o passar do tempo, algumas possibilidades se tornam realidade e outras começam a fechar suas portas.

Nem sempre fazemos cerimônia para essas despedidas.

Mas elas acontecem.

Existe também um luto por quem imaginávamos ser

Talvez uma das formas mais silenciosas desse processo apareça quando a perda não envolve outra pessoa.

Envolve nós mesmos.

Todos construímos alguma imagem sobre quem seríamos no futuro.

A criança imagina o adulto. O adolescente imagina sua independência. O adulto de 30 imagina quem será aos 40. Aos 40, projetamos os 50.

E essas versões imaginadas de nós mesmos podem carregar expectativas muito específicas.

“Quando eu chegar lá, estarei segura.”

“Quando conquistar isso, finalmente vou me sentir realizada.”

“Quando meus filhos crescerem, vou viver para mim.”

“Quando encontrar alguém, minha vida vai se organizar.”

Então chegamos ao lugar que durante anos chamamos de futuro e descobrimos que ele não se parece tanto com aquilo que imaginávamos.

Pode haver conquistas, inclusive. O problema é que algumas delas não produzem a sensação que esperávamos.

Em outros casos, simplesmente não aconteceram.

E surge uma espécie de desencontro entre a pessoa que existe e aquela que acreditávamos que existiria.

Esse encontro pode ser doloroso porque nos obriga a fazer algo difícil: rever a narrativa que construímos sobre nós mesmos.

O que nunca aconteceu não pode ser corrigido

Há outra particularidade nas perdas imaginadas.

Quando alguma coisa aconteceu, podemos revisitá-la mentalmente. Podemos lembrar dos momentos bons e ruins, reinterpretar acontecimentos, reconhecer limites.

Com aquilo que não aconteceu, a mente encontra um território muito mais aberto.

“E se?”

Talvez duas palavras sejam suficientes para manter uma história viva durante anos.

E se eu tivesse aceitado aquele emprego?

E se tivesse continuado naquele relacionamento?

E se tivesse feito aquele curso?

E se tivesse ido embora daquela cidade?

E se tivesse dito o que sentia?

A pergunta parece procurar uma resposta, mas frequentemente não existe resposta possível.

Porque estamos comparando nossa vida real, cheia de dificuldades, frustrações e contradições, com uma vida hipotética que nunca precisou enfrentar nenhuma delas.

Naturalmente, a vida imaginada leva vantagem.

Ela não envelheceu.

Não fracassou.

Não nos decepcionou.

Permaneceu intacta justamente porque nunca aconteceu.

Talvez seja por isso que algumas possibilidades perdidas sejam tão difíceis de abandonar. Não estamos nos despedindo de algo que descobrimos ser ruim. Estamos nos despedindo de algo que ainda poderia ter sido maravilhoso.

Nem todo apego ao passado deseja voltar ao passado

Donald Winnicott escreveu sobre a capacidade de estar só como uma conquista importante do desenvolvimento emocional. Não se trata simplesmente de isolamento, mas da possibilidade de existir sem precisar preencher continuamente o espaço com a presença ou a aprovação do outro.

Essa ideia pode nos ajudar a pensar também sobre o que fazemos depois que determinadas expectativas desaparecem.

Quando um futuro imaginado se rompe, surge um espaço vazio.

E espaços vazios costumam provocar ansiedade.

É por isso que algumas pessoas rapidamente procuram outra relação, outro projeto, outra promessa, qualquer coisa que devolva a sensação de que existe novamente uma história sendo construída.

Não necessariamente porque o novo objeto seja desejado em si, mas porque permanecer diante de um futuro temporariamente sem roteiro pode ser bastante desconfortável.

Talvez parte do trabalho emocional diante dessas perdas seja justamente suportar por algum tempo esse intervalo.

Não preencher imediatamente.

Não fingir que não doeu.

Não transformar o que não aconteceu em prova de fracasso.

Apenas reconhecer que determinada possibilidade teve importância e que agora ela deixou de estar disponível daquela forma.

Aceitar uma perda não significa declarar que ela não importava

Existe uma ideia curiosa de que superar alguma coisa significa chegar ao ponto em que ela deixa de ter importância.

Não penso assim.

Algumas coisas continuam importantes mesmo depois que deixamos de desejá-las.

Um relacionamento pode ter sido significativo e não precisar voltar.

Um sonho pode ter sido verdadeiro e não precisar ser realizado.

Uma versão de nós mesmos pode ter nos acompanhado durante anos e ainda assim precisar ser abandonada.

Elaborar uma perda não exige apagar seu valor.

Talvez exija justamente o contrário: reconhecer o valor que ela teve para compreender por que foi tão difícil deixá-la.

Freud descrevia o luto como um processo em que o investimento ligado ao objeto perdido precisa, pouco a pouco, encontrar outros destinos. A experiência humana, evidentemente, é mais complexa do que uma fórmula simples, mas existe algo profundamente atual nessa ideia.

Quando um futuro deixa de existir, a pergunta não precisa ser apenas “como faço para esquecer isso?”.

Talvez uma pergunta mais interessante seja: o que de mim estava investido nesse futuro?

Segurança?

Reconhecimento?

Pertencimento?

Amor?

Uma sensação de reparação?

A esperança de finalmente me sentir suficiente?

Porque, quando começamos a perceber o que realmente estava depositado naquela possibilidade, talvez descubramos que nem tudo desapareceu junto com ela.

Algumas coisas precisam terminar mesmo sem terem começado

Há despedidas para as quais ninguém nos ensinou um ritual.

Não existe funeral para uma carreira que não seguimos.

Não existem flores para o relacionamento que quase aconteceu.

Ninguém envia uma mensagem dizendo “meus sentimentos” quando percebemos que não teremos a vida que imaginávamos aos vinte anos.

Talvez por isso essas perdas sejam tão facilmente diminuídas.

Nós mesmos fazemos isso.

“Que bobagem.”

“Nem aconteceu.”

“Já deveria ter superado.”

Mas a vida psíquica não mede importância apenas pela duração ou pela materialidade dos acontecimentos.

Ela também responde aos significados que construímos.

E reconhecer isso não significa transformar qualquer frustração em trauma, nem patologizar expectativas frustradas. Significa apenas admitir algo bastante humano: somos seres capazes de habitar o presente enquanto imaginamos futuros.

Alguns desses futuros chegam.

Outros mudam.

E alguns nunca existirão.

Talvez amadurecer tenha menos a ver com conseguir realizar todas as versões de vida que imaginamos e mais com conseguir nos despedir de algumas delas sem concluir que, por isso, nossa história deu errado.

Já me peguei pensando que talvez uma das perguntas mais difíceis da vida adulta não seja apenas “o que eu ainda quero viver?”, mas outra, muito menos confortável:

de quais vidas que nunca vivi eu ainda não consegui me despedir?

Referências e leituras utilizadas

FREUD, Sigmund. Mourning and Melancholia [Luto e melancolia]. In: The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud. Vol. XIV. Londres: Hogarth Press and The Institute of Psycho-Analysis, 1957. Trabalho original publicado em 1917.

WINNICOTT, Donald W. The Capacity to Be Alone. International Journal of Psychoanalysis, v. 39, p. 416–420, 1958.

Aviso sobre conteúdo

Este artigo tem finalidade educativa e informativa. Não oferece diagnóstico, tratamento individualizado nem substitui acompanhamento profissional.