Você recebe uma mensagem simples: “Tudo bem se a gente deixar para outro dia?”
Sua primeira reação talvez nem seja pensar se está tudo bem para você. Antes disso, você calcula a resposta. Não quer parecer difícil, carente, impaciente ou decepcionada. Então digita “claro, sem problema 😊”, mesmo tendo reorganizado o dia inteiro para aquele encontro.
Em outra situação, alguém pergunta onde você quer jantar e você responde “qualquer lugar está bom”. No trabalho, pedem mais uma tarefa quando sua agenda já não comporta nem cinco minutos de imprevisto e, ainda assim, você diz que consegue. Em casa, alguém faz um comentário que incomoda, mas você ri para não criar um clima ruim.
Separadamente, essas cenas parecem pequenas. Talvez até pareçam sinais de flexibilidade, educação ou maturidade.
O problema começa quando “tanto faz” se torna a resposta para quase tudo.
Porque existe uma diferença importante entre saber ceder e ter aprendido a desaparecer um pouco para continuar sendo querida.
E talvez uma das perguntas mais desconfortáveis que possamos fazer a nós mesmos seja esta: quem eu teria me tornado se não tivesse passado tantos anos tentando ser alguém fácil de amar?
Quando ser querida começa a custar caro demais
Agradar faz parte das relações humanas. Todos nós ajustamos comportamentos, fazemos concessões, pensamos no outro e, em determinados momentos, abrimos mão de alguma coisa em benefício de alguém que amamos.
Isso não é necessariamente um problema.
Nenhuma relação sobreviveria se cada pessoa defendesse seus desejos o tempo inteiro como se estivesse negociando um tratado internacional.
A questão é outra.
O que acontece quando agradar deixa de ser uma escolha e passa a funcionar quase como uma condição para se sentir segura dentro das relações?
Nesse ponto, dizer “sim” pode já não significar “eu quero”. Pode significar “tenho medo do que acontecerá se eu disser não”.
E essa diferença muda muita coisa.
Na minha experiência de escuta, algo que sempre me chama atenção é como algumas pessoas conseguem identificar com enorme precisão o que os outros querem delas, mas encontram uma dificuldade surpreendente quando precisam responder a uma pergunta aparentemente simples:
“E você, o que quer?”
Às vezes vem um silêncio.
Outras vezes surge um “não sei”.
E esse “não sei” pode carregar uma história muito maior do que parece.
Porque talvez aquela pessoa tenha passado tanto tempo observando os sinais externos que deixou de prestar atenção aos próprios.
Ela sabe quando alguém está irritado pelo jeito de fechar uma porta. Percebe uma mudança mínima no tom de uma mensagem. Identifica rapidamente quando alguém ficou decepcionado. Sabe quando deve falar menos, quando precisa concordar, quando é melhor mudar de assunto.
É quase um radar emocional.
Só que o radar está sempre apontado para fora.
Antes de agradar os outros, aprendemos a perceber o ambiente
Donald Winnicott desenvolveu uma ideia especialmente interessante para pensar sobre isso: a noção de verdadeiro self e falso self.
Esses conceitos não significam simplesmente que existe uma versão “verdadeira” e outra “falsa” de alguém, como se uma delas fosse autêntica e a outra uma personagem mentirosa. A questão é mais delicada.
Winnicott observou como, desde muito cedo, a criança precisa encontrar algum espaço para existir espontaneamente dentro da relação com quem cuida dela. Quando o ambiente consegue acolher suficientemente seus gestos, necessidades e manifestações, ela pode experimentar algo fundamental: a sensação de que existe a partir de si mesma.
Mas também precisamos nos adaptar.
Isso é inevitável.
O problema aparece quando a adaptação ocupa espaço demais.
Imagine uma criança que percebe que determinados comportamentos recebem afeto e outros provocam irritação, afastamento ou desaprovação. Ela não precisa formular conscientemente algo como “vou modificar minha personalidade para preservar esse vínculo”. Crianças não costumam redigir contratos emocionais internos.
Elas simplesmente aprendem.
Aprendem quando é melhor ficar quietas.
Aprendem o que faz os adultos sorrirem.
Aprendem quais sentimentos são bem recebidos.
Aprendem quais partes delas parecem dar trabalho.
E algumas se tornam extraordinariamente competentes em corresponder.
A menina “boazinha”.
O filho que “nunca deu problema”.
A adolescente madura demais para a idade.
A pessoa que sempre compreende todo mundo.
Essas características podem realmente fazer parte de alguém. Não significa que toda gentileza esconda sofrimento ou que toda pessoa conciliadora esteja reprimindo a própria identidade.
Mas, em alguns casos, existe uma pergunta importante por trás dessa aparente facilidade:
Quanto dessa adaptação nasceu da liberdade e quanto nasceu da necessidade de preservar vínculos?
Existe um medo escondido dentro de alguns “sins”
Você provavelmente já viu alguém aceitar algo e depois passar horas irritado porque aceitou.
Talvez essa pessoa tenha sido você.
“Pode deixar que eu faço.”
Cinco minutos depois, está indignada porque ninguém percebeu que ela não queria fazer.
Parece contraditório, e realmente é.
Mas o psiquismo humano está cheio de contradições.
Quem passou muito tempo tentando agradar pode desejar profundamente que os outros reconheçam seus limites sem que seja necessário expressá-los. Existe quase uma expectativa silenciosa: “Se você realmente se importasse comigo, perceberia que estou cansada.”
Só que o outro não necessariamente percebe.
Então surge ressentimento.
A pessoa concorda, ajuda, aceita, compreende e acomoda. Depois sente que ninguém faz o mesmo por ela.
Nesse momento, é fácil concluir que o problema está exclusivamente nas pessoas ao redor. Às vezes está mesmo. Existem relações profundamente desequilibradas.
Mas existe outra possibilidade que merece ser examinada: talvez você tenha se tornado tão eficiente em esconder suas necessidades que as pessoas aprenderam a acreditar na versão que você apresenta.
Você diz que está tudo bem.
Elas acreditam.
Você diz que não se importa.
Elas acreditam.
Você responde que pode fazer.
Elas acreditam.
Até que um dia você pensa: “Ninguém me conhece de verdade.”
E talvez exista algo doloroso nessa constatação porque, em alguma medida, você também não permitiu que conhecessem certas partes suas.
Não por falsidade.
Talvez por medo.
O medo de decepcionar pode ser maior que o desejo de escolher
John Bowlby, ao desenvolver a teoria do apego, ajudou a compreender como nossas primeiras experiências de vínculo participam da construção das expectativas que levamos para relações posteriores.
Isso não significa que nossas relações adultas sejam cópias automáticas da infância. A vida é muito mais complexa do que essa equação. Novos vínculos, experiências, perdas, encontros e processos de elaboração podem modificar profundamente nossa maneira de nos relacionar.
Ainda assim, aprendemos alguma coisa sobre proximidade muito cedo.
Aprendemos, por exemplo, se nossas necessidades costumam encontrar resposta, se podemos demonstrar desconforto, se o afastamento do outro parece suportável e se conflitos necessariamente significam perda.
Para algumas pessoas, desagradar não é vivido apenas como uma diferença de opinião.
É sentido quase como uma ameaça ao vínculo.
Por isso uma resposta curta no WhatsApp pode gerar horas de análise.
“Será que falei alguma coisa?”
A pessoa relê a conversa, procura uma palavra errada, lembra do encontro anterior, examina o último emoji como se estivesse realizando uma perícia emocional.
O curioso é que, muitas vezes, nem existe conflito.
Existe apenas a possibilidade dele.
E essa possibilidade já é suficiente para ativar uma antiga necessidade de restaurar rapidamente a harmonia.
Então a pessoa manda outra mensagem.
Explica mais do que precisava.
Pede desculpas por algo que talvez nem tenha feito.
Tenta agradar antes mesmo de descobrir se alguém ficou realmente desagradado.
Aos poucos, você pode construir uma vida que combina com todo mundo, menos com você
Talvez essa seja uma das consequências mais silenciosas de viver excessivamente orientado pela aprovação.
Não acontece uma grande tragédia.
A pessoa simplesmente vai fazendo pequenas escolhas.
Escolhe uma profissão que parece mais aceitável.
Mantém amizades que já não fazem sentido.
Continua em relações que exigem versões reduzidas dela.
Aceita compromissos que não deseja.
Evita roupas, opiniões, projetos ou mudanças porque imagina o julgamento alheio.
Nada disso parece enorme quando observado isoladamente.
Mas vinte anos de pequenas renúncias podem construir uma vida inteira.
E então pode surgir uma sensação estranha.
Você olha para tudo e pensa: “Eu deveria estar feliz.”
A carreira está razoável.
A família considera suas escolhas corretas.
As pessoas gostam de você.
Você é vista como confiável, disponível, educada, compreensiva.
Mesmo assim, alguma coisa parece fora do lugar.
Talvez porque aprovação e identificação não sejam a mesma coisa.
Ser admirado pela personagem que você aprendeu a sustentar pode ser profundamente solitário quando partes importantes de você ficaram fora da cena.
O inconsciente também aprende maneiras de manter o amor
Freud mostrou que não somos completamente transparentes para nós mesmos. Parte importante da vida psíquica acontece fora daquilo que conseguimos reconhecer conscientemente.
Isso ajuda a compreender por que certos comportamentos continuam mesmo depois que percebemos racionalmente que nos prejudicam.
Alguém pode dizer:
“Eu sei que preciso parar de querer agradar todo mundo.”
E continuar agradando.
Não necessariamente por falta de força de vontade.
Talvez porque aquele comportamento tenha uma função emocional.
Se durante muito tempo agradar significou diminuir conflitos, preservar proximidade, receber reconhecimento ou evitar rejeição, abandonar esse padrão não significa apenas aprender a dizer “não”.
Significa enfrentar aquilo que o “sim” estava protegendo.
E é justamente aí que as coisas ficam interessantes.
Porque talvez o problema nunca tenha sido simplesmente a dificuldade de estabelecer limites.
Talvez exista algo muito mais profundo:
“Quem eu serei para essa pessoa quando deixar de corresponder ao que ela espera de mim?”
Essa pergunta raramente aparece de maneira tão clara.
Ela pode surgir como culpa.
Ansiedade.
Necessidade de justificar decisões.
Medo de parecer egoísta.
Vontade de voltar atrás depois de estabelecer um limite perfeitamente razoável.
Você finalmente diz que não poderá fazer algo e passa a noite inteira pensando se deveria mandar uma mensagem explicando melhor.
É quase curioso.
A pessoa estabelece o limite às três da tarde e, às onze da noite, ainda está fazendo a defesa jurídica dele dentro da própria cabeça.
Talvez algumas pessoas gostem menos de você quando você mudar
Existe uma parte dessa conversa que nem sempre é confortável.
Quando alguém começa a abandonar um padrão excessivamente adaptado, nem todas as relações comemoram.
Afinal, algumas pessoas conheceram justamente aquela versão.
A que estava sempre disponível.
A que aceitava mudanças de última hora.
A que escutava durante horas, mas raramente falava de si.
A que resolvia problemas.
A que cedia.
Quando essa pessoa começa a dizer “hoje não posso”, “isso me incomodou”, “prefiro outra coisa” ou simplesmente “não quero”, pode causar estranhamento.
E isso não significa automaticamente que os outros sejam abusivos ou manipuladores.
Relações também criam hábitos.
Se durante dez anos você disse “tanto faz”, é compreensível que alguém estranhe quando você finalmente disser “na verdade, eu quero outra coisa”.
O ponto importante é perceber o que acontece depois.
Existe espaço para sua diferença?
Sua opinião pode aparecer sem que você precise pagar por ela emocionalmente?
O vínculo suporta frustração?
Porque intimidade não é concordância permanente.
Uma relação em que você só pode permanecer enquanto corresponde às expectativas talvez ofereça aceitação, mas uma aceitação condicionada a uma versão específica de você.
O mais difícil talvez seja descobrir o que sobrou debaixo da adaptação
Existe uma ideia sedutora de que basta parar de agradar e imediatamente surgirá uma pessoa autêntica, decidida e absolutamente consciente do que deseja.
Nem sempre acontece assim.
Às vezes, quando alguém começa a retirar camadas de adaptação, encontra confusão.
“Eu gosto disso ou aprendi a gostar?”
“Eu realmente quero continuar aqui?”
“Essa opinião é minha?”
“Eu faria essa escolha se ninguém soubesse?”
Essas perguntas podem ser desconcertantes.
Mas talvez sejam mais interessantes do que qualquer lista sobre “como ser você mesma”.
Porque identidade não é um objeto escondido dentro de nós esperando ser encontrado intacto.
Nós também nos construímos nas relações.
Somos atravessados por desejos, expectativas, identificações, experiências e fantasias. A questão não é eliminar toda influência externa, algo praticamente impossível, mas começar a reconhecer onde termina a adaptação necessária à convivência e onde começa o abandono de si.
Na minha experiência de escuta, considero especialmente interessante observar o momento em que alguém começa a perceber que pode frustrar uma expectativa sem necessariamente destruir um vínculo.
Parece uma descoberta pequena.
Mas pode modificar muita coisa.
A pessoa diz “não” e percebe que o mundo continua existindo.
Discorda e descobre que a relação sobrevive.
Escolhe algo diferente do esperado e percebe que algumas pessoas permanecem.
E talvez ainda mais importante: começa a descobrir que também consegue permanecer consigo mesma diante da desaprovação.
A pessoa que você poderia ter sido talvez ainda esteja sendo construída
É tentador olhar para trás e imaginar uma versão alternativa de nós mesmos.
Quem eu seria se tivesse sido menos preocupada em corresponder?
Que escolhas teria feito?
Que relações teria encerrado?
Que lugares teria conhecido?
Que roupa teria usado?
Que opinião teria defendido?
Que projeto teria começado?
Essas perguntas podem produzir tristeza porque algumas possibilidades realmente pertencem ao passado.
Mas existe um risco em transformar essa reflexão em mais uma forma de cobrança.
Você pode acabar tentando agradar até a versão imaginária de quem deveria ter sido.
Talvez seja mais interessante pensar de outra maneira.
A pessoa que você seria se não tivesse passado tanto tempo tentando agradar não está necessariamente perdida em algum universo paralelo.
Partes dela podem aparecer toda vez que você percebe um desejo antes de consultar mentalmente a reação dos outros.
Toda vez que consegue sustentar uma escolha sem produzir uma explicação de quinze parágrafos.
Toda vez que reconhece que alguém ficar decepcionado com você não significa automaticamente que você fez algo errado.
E, principalmente, quando começa a compreender que consideração pelo outro e abandono de si não são sinônimos.
Talvez amadurecer emocionalmente não seja chegar ao ponto em que não precisamos da aprovação de ninguém. Somos seres relacionais. Queremos reconhecimento, pertencimento, afeto e reciprocidade.
A questão talvez seja não precisar pagar por tudo isso com a própria existência.
Por isso, quando penso sobre pessoas que passaram grande parte da vida tentando agradar, uma pergunta me parece mais interessante do que “como parar de fazer isso?”.
A pergunta é outra.
Na próxima vez em que você estiver prestes a dizer “tanto faz”, talvez valha esperar alguns segundos antes de responder.
Não para se obrigar a discordar.
Não para provar independência.
Apenas para descobrir se, dessa vez, realmente tanto faz.
Ou se existe alguém dentro de você que finalmente gostaria de responder.
Fran Carvalho Psicanalista
Referências e leituras utilizadas
BOWLBY, John. Attachment and Loss: Vol. 1. Attachment. 2. ed. New York: Basic Books, 1982.
FREUD, Sigmund. The Ego and the Id. In: The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, Vol. XIX. London: The Hogarth Press, 1961. Trabalho original publicado em 1923.
WINNICOTT, Donald W. Ego Distortion in Terms of True and False Self. In: The Maturational Processes and the Facilitating Environment: Studies in the Theory of Emotional Development. London: Hogarth Press, 1965. Trabalho original publicado em 1960.
Este artigo tem finalidade educativa e informativa. Não oferece diagnóstico, tratamento individualizado nem substitui acompanhamento profissional.

